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Os olhos do vizinho na minha janela não querem me ver: querem se ver. Cada vida que escapa do molde devolveaos comuns a suspeita de que poderiam tersido outra coisa, e essa suspeita os envenenapor dentro até virar vigília.O rebanho persegue o diferente por vertigem. Quem caminhou a vida inteira de mãos dadas com o próprio cativeiro precisa que ninguém atravesse a cerca, sob pena de o pasto inteiro descobrir que sempre foi pasto.Por isso me observam. Decoram meus passos, contam minhas faltas, fazem inventário do que comi, com quem dormi, em que altura caí. Chamam de interesse o que é claramente uma forma de contabilidade: toda existência que ousa um gesto próprio vira espelho na sala dos cegos voluntários.A sociedade quer cópias. Reproduz seus modelos como uma fábrica de bonecos de cera derretendo no mesmo molde, e batiza esse derretimento de virtude, de família, de juízo. O elogio mais alto que sabe dar é “pessoa de bem”, expressão que, traduzida, significa apenas: pessoa que coube.Eu nunca consegui caber em nada. Tentei, na idade em que tentar é instinto, e o esforço me deixou esse ranger de denteque carrego até hoje, esse riso meio torto diante das palavras grandes que os outros usam para nomear coisas pequenas.O julgamento alheio é uma forma de oração às avessas: rezam para que eu volte, porque minha permanência aqui fora desautoriza a vida inteira que escolheram. Se eu vivo, tiveram que morrer cedo paranão me ver de pé.A boca suja de quem nunca arriscou o próprio nome pode cochichar o que quiser. A altura que alcancei foi paga em moeda que ninguém viu cunhar, no escuro, sozinha, com sangue debaixo das unhas.E quando passarem por mim na rua e abaixarem os olhos, vão saber, sem querer saber, que estãodiante do que poderiam ter sido antes de assinarema rendição...#poesianua#textosautorais#liberdadedeexistir#coragemdeser#autenticidade
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